O descanso de Deus no sétimo dia
1 ¶ Assim, pois, foram acabados os céus e a
terra e todo o seu exército. 2 E, havendo Deus terminado no dia sétimo a sua
obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito. 3 E
abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra
que, como Criador, fizera. (Gênesis 2:1-3 RA)
Depois de ver que tudo quanto fizera era muito bom, Deus encerra
a criação. O relato de Gênesis 2:1-3 mostra que Deus concluiu a Sua obra
criadora e, no sétimo dia, descansou, abençoou e santificou esse dia como
distinto dos demais. Embora algumas traduções, como a do texto acima (RA –
Almeida Revista e Atualizada), deem a entender que Deus teria finalizado algo
no próprio sétimo dia, versões como a NVI e a ARA ajustam para: “No sétimo dia,
Deus já havia terminado...”. Essas versões tornam a leitura mais coerente com o
restante das Escrituras, indicando que a criação terminou no sexto dia e que o
sétimo foi separado para o descanso, sem qualquer nova obra realizada:
“porque,
em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao
sétimo dia, descansou; por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o
santificou.” (Êxodo 20:11 RA)
“Entre
mim e os filhos de Israel é sinal para sempre; porque, em seis dias, fez o
SENHOR os céus e a terra, e, ao sétimo dia, descansou, e tomou alento.” (Êxodo
31:17 RA)
O sábado antes da Lei de Moisés
Sabendo disso, fica claro que no sétimo dia não houve criação e
que Deus o santificou, ou seja, separou e o abençoou. Porém, até este ponto no
relato bíblico, e também antes da entrega dos mandamentos a Moisés e a todo o
povo de Israel, não há menção explícita de que o homem devesse separar o dia de
sábado da mesma forma que Deus o fez. A ordem de guardar o sábado como dia santo
só aparece mais tarde, quando o Senhor dá a Lei no Sinai (Êxodo 20:11)
O propósito de santificar o sétimo dia
O objetivo principal de santificar o sétimo dia, além de
torná-lo um tempo em que o homem descansaria de seus trabalhos e buscaria a
Deus e O adoraria (Levítico 23:3;
Isaías 58:13-14), era também preservar a
criação contra abusos e trabalhos forçados. O sábado foi estabelecido por
Deus não apenas como um memorial da criação (Gênesis 2:3), mas como um ato de
misericórdia e justiça, visando proteger todos os seres viventes do
desgaste contínuo do trabalho.
Sem uma ordenança divina que determinasse o descanso, seria
comum que senhores, mesmo os tementes a Deus, impusessem jornadas exaustivas
a seus servos, estrangeiros e até mesmo aos animais. O sábado, portanto,
estabelecia limites justos e promovia a dignidade do descanso,
assegurando que todos, inclusive os mais vulneráveis, tivessem tempo para
repousar e se aproximar do Senhor.
O sábado como proteção e justiça
Essa intenção de proteção é claramente revelada nos mandamentos
dados por Deus:
- “Mas
o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus: não farás nenhum trabalho,
nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva,
nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro.” (Êxodo
20:10 – RA)
- “Seis
dias farás os teus trabalhos, mas, ao sétimo dia, descansarás, para que
descansem o teu boi e o teu jumento, e tome alento o filho da tua serva e
o forasteiro.” (Êxodo 23:12 – RA)
- “...para
que descanse o teu servo e a tua serva como tu. Lembra-te de que foste
servo na terra do Egito, e que o Senhor, teu Deus, te tirou dali com mão
poderosa e braço estendido; pelo que o Senhor, teu Deus, te ordenou que
guardasses o dia de sábado.” (Deuteronômio 5:14-15
– RA)
Esses textos mostram que o sábado não foi instituído apenas como
uma prática ritual, mas como expressão da bondade e justiça de Deus, que
deseja que até mesmo os mais humildes e os animais da terra experimentem o
alívio do descanso e a liberdade de buscar ao Senhor.
O descanso da terra
Além disso, o princípio do descanso também se estendia à própria
terra. Deus ordenou que os israelitas cultivassem seus campos por seis anos,
mas no sétimo ano a terra deveria descansar e ficar em repouso, como sinal de
confiança na provisão divina e respeito ao ciclo da criação:
“Seis anos semearás a tua terra e recolherás
os seus frutos; porém, ao sétimo, a deixarás descansar e não a cultivarás, para
que comam os pobres do teu povo, e o que deixarem, comam os animais do campo”
(Êxodo 23:10-11 – RA).
A desobediência a esse princípio resultava em consequências
reais: quando o povo ignorou os anos sabáticos, Deus permitiu que a terra
ficasse desolada durante o exílio, para que ela “recobrasse os seus sábados”:
“para que se cumprisse a palavra do SENHOR, por boca de Jeremias, até
que a terra se agradasse dos seus sábados; todos os dias da desolação repousou,
até que os setenta anos se cumpriram.” (2 Crônicas 36:21 RA)
Isso mostra que
o descanso ordenado por Deus tinha não apenas um propósito espiritual, mas
também social, ecológico e de fidelidade à sua aliança.
Sabedoria prática de Deus no descanso da terra
Esse descanso
ordenado à terra também revela a sabedoria prática de Deus. Hoje, práticas
agrícolas como o pousio e o uso de plantas de cobertura, que produzem muita
matéria orgânica e são incorporadas ao solo, mostram que a terra realmente se
beneficia ao ser deixada sem cultivo por um período. Esse intervalo ajuda na
recuperação dos nutrientes, quebra o ciclo de pragas e prepara o solo para
voltar a produzir com força no “oitavo ano”. Assim, mesmo que os cristãos hoje
não estejam obrigados a guardar esse mandamento, vemos que o princípio continua
válido e confirma a perfeita ordem de Deus tanto no cuidado espiritual quanto
no natural.
O sábado na época de Jesus
No Novo Testamento, vemos Jesus aplicar uma perspectiva correta
e restauradora ao sábado, que era um dia especial consagrado a Deus desde a
criação (Gênesis 2:3). No entanto,
ao longo do tempo, os judeus, especialmente os fariseus e escribas, tornaram-se
excessivamente rigorosos quanto à observância do sábado, impondo interpretações
e tradições que iam além da Lei de Moisés.
Essas tradições humanas, acumuladas através dos séculos,
acabaram por transformar o sábado, que era para ser um descanso abençoado, em
um fardo opressor para o povo. Jesus confrontou diretamente esse uso deturpado
do sábado.
Confrontos de Jesus com o legalismo sabático
A Bíblia registra vários exemplos dessas regras rígidas e a
resposta de Jesus a elas:
Carregar uma cama era proibido segundo os líderes religiosos, e
foi motivo de crítica quando Jesus curou um paralítico e lhe ordenou:
“Levanta-te,
toma o teu leito e anda.” (João 5:8 – RA).
Os judeus o repreenderam:
“Hoje
é sábado, e não te é lícito carregar o leito.” (João 5:10 – RA)
Colher espigas também foi considerado trabalho indevido, como
vemos quando os discípulos de Jesus colheram espigas para comer:
“Os
teus discípulos fazem o que não é lícito fazer em dia de sábado.” (Mateus 12:2
– RA)
Curar no sábado era visto como violação da lei, a menos que a
vida estivesse em risco. Por isso, quando Jesus curava alguém, os fariseus
muitas vezes questionavam sua ação. Um exemplo claro está em Lucas
13:14:
“Então,
o chefe da sinagoga, indignado de ver que Jesus curava no sábado, disse ao
povo: Seis dias há em que se deve trabalhar; vinde, pois, nesses dias para
serdes curados e não no sábado.”
Jesus respondeu mostrando que até os próprios judeus cuidavam de
seus animais no sábado, portanto era plenamente lícito fazer o bem:
“Qual
dentre vós será o homem que, tendo uma ovelha, e num sábado esta cair numa
cova, não lançará mão dela e a levantará? Ora, quanto mais vale um homem que
uma ovelha! Logo, é lícito, nos sábados, fazer o bem.” (Mateus 12:11-12 – RA)
Além dessas, há várias outras regras dentre elas a tal
"jornada de um sábado" que era uma distância tradicionalmente
permitida para caminhar nesse dia. Embora o limite exato não esteja definido na
Lei de Moisés, Atos 1:12 menciona essa
expressão:
“Então,
voltaram para Jerusalém, do monte chamado das Oliveiras, que dista desta cidade
uma jornada de sábado.”
Jesus não violou o sábado, mas confrontou o legalismo farisaico
que o havia distorcido. Ele ensinou que o sábado foi feito para o benefício do
homem, e não o contrário:
“O
sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado;
de sorte que o Filho do Homem é senhor também do sábado.” (Marcos 2:27-28 – RA)
Além disso, ao dizer:
“Meu
Pai trabalha até agora, e eu trabalho também.” (João 5:17 – RA)
Jesus revelou que a obra de Deus em sustentar o mundo e salvar
vidas não cessa nem mesmo no sábado. A atividade divina continua, especialmente
na misericórdia, cura e salvação, pois o descanso sabático não é uma limitação
para o agir de Deus.
O entendimento do apóstolo Paulo sobre o
sábado
O apóstolo Paulo também tinha uma compreensão mais ampla e
libertadora a respeito do sábado, especialmente à luz da nova aliança em
Cristo. Para ele, a santidade e a devoção a Deus não estavam mais
limitadas a um único dia da semana, mas se tornaram um estilo de vida
constante para aqueles que vivem pela fé.
Em suas epístolas, Paulo ensina que ninguém deve ser julgado
ou pressionado por guardar dias específicos, pois isso pertence à antiga
ordem, agora cumprida em Cristo:
"Ninguém, pois, vos julgue por causa de
comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, que são sombras das
coisas que haviam de vir; mas o corpo é de Cristo." (Colossenses 2:16-17 –
RA)
Ele também declara:
"Um faz diferença entre dia e dia; outro
julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem definida em sua própria
mente." (Romanos 14:5 – RA)
Essas palavras não desprezam o sábado, mas mostram que na
nova aliança, a adoração a Deus não está mais restrita a dias específicos,
pois Cristo é o cumprimento da Lei (Mateus 5:17) e em Cristo temos descanso
permanente:
“9 Portanto, resta um repouso
para o povo de Deus. 10 Porque aquele
que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como
Deus das suas.” (Hebreus 4:9-10 RA)
Cristo como o verdadeiro descanso
A passagem acima mostra que, assim como Deus descansou no
sétimo dia de Suas obras (Gênesis 2:2), quem está em Cristo também cessa
de suas próprias obras, ou seja, confia na obra consumada de Cristo
e descansa da tentativa de obter justiça pelas obras da lei (Romanos 10:4, Efésios 2:8-9), pois Cristo é o nosso Sábado, Ele é o nosso descanso:
“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos
aliviarei.” (Mateus 11:28 RA)
O primeiro dia da semana na igreja primitiva
Além disso, já nos primeiros anos da igreja cristã, observamos
os discípulos reunindo-se no primeiro dia da semana, o domingo,
que ficou conhecido como o Dia do Senhor, em referência à ressurreição
de Jesus:
“No primeiro dia da semana, estando nós
reunidos com o fim de partir o pão...” (Atos 20:7 – RA)
“No primeiro dia da semana, cada um de vós
ponha de parte o que puder ajuntar...” (1 Coríntios 16:2 – RA)
O apóstolo João também se refere ao “Dia do Senhor”, em
que teve a visão do Apocalipse:
“Achei-me em espírito, no dia do Senhor...”
(Apocalipse 1:10 – RA)
Esses textos mostram que a igreja primitiva passou a se
reunir no domingo, não como imposição legal, mas como expressão da nova
vida em Cristo ressuscitado, celebrando a redenção e a nova criação
iniciada em Jesus.
Conclusão
Na Nova Aliança, o sábado não foi simplesmente abolido, mas cumprido
em Cristo, que é o verdadeiro descanso para o povo de Deus. O foco não está
mais em um dia específico, mas em uma vida inteira vivida em comunhão com
Deus, todos os dias, por meio da fé em Cristo. Aquele que está em Cristo descansa
de suas próprias obras, confiando na obra consumada de Jesus e não
mais buscando justiça por meio da Lei (Hebreus 4:9-10).
A prática da igreja primitiva de se reunir no domingo não foi
uma simples troca de datas, mas um símbolo da ressurreição de Cristo e
do novo começo para a humanidade redimida. O domingo passou a
representar a liberdade da graça, marcando a vida daqueles que não
estão mais debaixo da Lei, mas sim da graça de Deus (Romanos 6:14).