Tendo compreendido a profundidade da oração de Paulo,
especialmente seu pedido para que Deus iluminasse os olhos do coração dos
crentes, avançamos agora para o ponto em que o apóstolo revela como esse poder
divino se manifesta de forma suprema na obra de Cristo. É justamente nessa
transição que entramos nos versículos 19 a 23, onde Paulo descreve a grandeza
incomparável do poder de Deus e a exaltação de Jesus acima de todas as coisas.
A partir daqui, veremos de maneira mais detalhada a natureza
desse poder que Paulo pede que Deus conceda aos crentes, um poder que não
apenas salva, mas também sustenta, transforma e glorifica.
“19 e qual a suprema grandeza do seu poder para
com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; 20 o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o
dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais,
3. A suprema grandeza do seu poder para com os que creem
Esse poder é o mesmo poder que Deus exerceu em Cristo,
ressuscitando-o dentre os mortos (Ef 1:20).
Deus agiu com poder para realizar o Seu plano. Paulo mostra,
logo no início do capítulo 2 de Efésios, o tamanho desse poder ao descrever a
nossa antiga condição espiritual:
“Estando
vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o
curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora
atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos
outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e
dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais”
(Efésios 2:1-3).
Ou seja, antes da ação poderosa de Deus, estávamos completamente
perdidos, espiritualmente mortos, escravizados pelo pecado, submissos às
paixões carnais e à influência de Satanás. Não havia em nós capacidade ou
vontade de buscar a Deus, vivíamos segundo o curso deste mundo, afastados da
vida que vem de Deus (Romanos 3:10-12; Efésios 4:18).
Mas é nesse cenário de total miséria espiritual que se manifesta
“a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos” (Efésios
1:19). Pois “Deus, sendo rico em misericórdia, e por
causa do grande amor com que nos amou, estando nós mortos em nossos delitos,
nos deu vida juntamente com Cristo, pela graça sois salvos” (Efésios 2:4-5).
Esse é o PODER que Paulo deseja que conheçamos, o poder que
vivifica os mortos espirituais, que tira o homem das trevas e o transporta para
o reino do Filho do Seu amor (Colossenses 1:13). É o poder que muda a natureza humana, que gera fé onde havia
incredulidade, e que sustenta os crentes até o fim.
O fato de crermos, permanecermos firmes e continuarmos sendo
transformados é resultado direto da eficácia da força desse poder. É por isso
que nossa salvação não depende da nossa força, mas da fidelidade de Deus, que “há de
completar a boa obra que começou em nós até o dia de Cristo Jesus” (Filipenses
1:6).
Nada pode impedir o cumprimento do plano de Deus, e é nesse
poder irresistível e eficaz que se baseia nossa segurança eterna.
Nada além do supremo poder de Deus poderia tirar o homem da
morte espiritual e torná-lo participante da herança dos santos na luz (Cl
1:12-13).
Esse mesmo poder é o que nos sustenta na fé até o fim (1Pe
1:5). Por isso, cremos na segurança eterna do crente: quem foi
chamado e salvo pelo poder de Deus não pode ser perdido, pois é Deus quem
preserva o que Ele mesmo regenerou (Rm 8:38-39; Jo 6:37-39).
Esse poder ao qual Paulo se refere está diretamente ligado à
salvação. Deus é poderoso para mudar todo o universo que conhecemos, alterar o
clima e até deslocar montanhas (Salmos 65:6; Mateus 17:20). No entanto, o apóstolo fala de um poder específico, o
poder de Deus para com os que creem, isto é, o poder da salvação.
Tendo compreendido como esse poder atua espiritualmente na vida
dos crentes, podemos olhar para o contexto dos efésios e perceber como essa
mensagem fazia sentido para eles.
Os efésios eram adoradores da deusa Diana e praticavam magia,
feitiçaria e adivinhações. Quando se converteram ao Evangelho, demonstraram
publicamente o arrependimento queimando todos os livros e objetos relacionados
à idolatria (Atos 19:19). Mas
eles poderiam ter se perguntado: “Agora que somos filhos de Deus, como podemos
ver o Seu poder? Ainda ficamos doentes, ainda enfrentamos problemas, e agora
passamos a ser perseguidos. Onde está, então, a manifestação desse poder?”
Essa é justamente a essência da mensagem que Paulo transmite: o
poder de Deus não se manifesta necessariamente em grandes eventos visíveis
ou em demonstrações extraordinárias, como milagres e sinais, mas atua
principalmente na dimensão espiritual, nas regiões celestiais, e se
manifesta em Cristo Jesus. Foi esse poder grandioso que o ressuscitou
dentre os mortos e o fez assentar-se à direita de Deus nos lugares celestiais (Efésios
1:20; Filipenses 2:9-11).
Em resumo, o grande poder de Deus se revela:
- No fato de Deus ter escolhido aqueles que
seriam salvos (Efésios 1:4-5);
- No fato de Cristo ter morrido por esses
escolhidos na cruz (Romanos 5:8);
- No fato de Deus chamar irresistivelmente por
meio da pregação da Palavra (Romanos
10:17; João 6:44);
- Em dar vida àqueles que estavam espiritualmente
mortos (Efésios 2:1,5);
- Em conceder o Espírito Santo para sustentar os
crentes até o fim (Efésios 1:13-14;
Filipenses 1:6).
É nisso que se manifesta o poder de Deus para conosco: em nos
resgatar deste mundo, perdoar os nossos pecados, dar-nos nova
vida, nos regenerar, conceder-nos o Espírito Santo e nos
preservar para a salvação eterna, a qual está reservada para o povo de Deus
(1
Pedro 1:3-5).
E é tão grande esse poder que Paulo tenta explicá-lo utilizando quatro
palavras diferentes na língua grega para descrevê-lo, todas
presentes em Efésios 1:19:
“E
qual a suprema grandeza do seu poder¹ para com os que cremos, segundo a eficácia²
da força³ do seu poder⁴” (Efésios 1:19).
Paulo emprega quatro termos gregos distintos para
expressar a grandiosidade do poder de Deus:
1. Poder — do grego dýnamis, de
onde vem a palavra dinamite, indicando força ativa, capacidade de
realizar algo com eficácia (Atos 1:8);
2. Eficácia — do grego enérgeia,
de onde vem o termo energia, significando ação operante, atividade
eficaz de Deus (Filipenses 3:21);
3. Força — do grego krátos, que dá
origem a palavras como democracia (“poder do povo”), e expressa domínio,
autoridade e soberania (1 Pedro 5:11);
4. Poder — do grego ischýs, que
significa capacidade, vigor, força interior para realizar grandes feitos
(Marcos
12:30).
Paulo reúne essas quatro palavras para tentar transmitir a imensidão
do poder divino. Esse é o poder que realiza o maior de todos os milagres: a
conversão de um pecador a Jesus Cristo (2 Coríntios 5:17).
E esse poder não cessa após a conversão; ele continua operando
na vida do crente, sustentando-o e fazendo-o perseverar na fé até o
fim (Filipenses
1:6).
É esse poder que nos tira da morte para a vida (Efésios
2:1,5), das trevas para a luz (Colossenses
1:13), e da escravidão do pecado para a liberdade em Cristo Jesus
(Romanos
6:22). Somente esse poder pode transformar por completo a
vida de qualquer pessoa.
20 o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o
dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais,
Paulo, após descrever o grande poder de Deus que age na
conversão dos crentes, poder que transforma filhos da perdição em filhos
de Deus (Efésios 2:3-5; João 1:12-13), não se contenta em apenas falar sobre essa grandeza, mas mostra
onde esse poder é revelado de forma mais clara e perfeita: em Jesus Cristo.
O mesmo poder que Deus exerceu em Cristo, ressuscitando-o
dentre os mortos e fazendo-o assentar-se à Sua direita nos lugares
celestiais, é o poder que opera também em nós, os que cremos (Efésios
1:19-20).
A ressurreição de Jesus é, portanto, a maior
demonstração da força divina que também atua na vida dos crentes.
Diferente das outras ressurreições registradas na Bíblia, como a
do filho da viúva de Sarepta (1 Reis 17:22), a do homem que tocou os ossos de Eliseu (2 Reis
13:21), a de Lázaro (João
11:43-44) e a da menina Tabita (Atos
9:40-41), a ressurreição de Cristo
é única e superior a todas elas.
As demais pessoas ressuscitadas voltaram à vida em corpos
corruptíveis e, por isso, morreram novamente.
Mas Cristo ressuscitou em um corpo incorruptível e glorioso
(1
Coríntios 15:42-44), imortal e eterno, que vive
e reina até hoje (Romanos 6:9).
Foi essa a razão pela qual Paulo cita especificamente a
ressurreição de Cristo: ela é a expressão máxima do poder de Deus.
A ressurreição de Jesus inaugura uma nova humanidade. Ele
é chamado de “o primogênito dentre os mortos” (Colossenses
1:18; Apocalipse 1:5), pois foi o primeiro a receber
um corpo glorificado, modelo do corpo que será dado aos que creem (Filipenses
3:20-21). Assim, Cristo é o princípio de uma nova
criação, o novo homem, que vive para sempre diante de Deus.
Depois de ressuscitar Jesus, Deus o exaltou aos céus, e
esse acontecimento foi testemunhado pelos discípulos (Atos
1:9-11) e profetizado por Davi, que disse:
“Disse
o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus
inimigos por escabelo dos teus pés” (Salmos 110:1; Atos 2:34-35).
Cristo havia se esvaziado de Sua glória e posição
original (Filipenses 2:6-8), assumindo a
forma de servo e se humilhando até a morte. Mas Deus o exaltou soberanamente,
restituindo-lhe toda a glória e majestade (Filipenses
2:9-11).
Agora, Cristo está assentado à direita de Deus não apenas
como Deus, mas também como homem.
Isso significa que há um de nós, um homem perfeito, assentado
no trono de Deus, representando toda a humanidade redimida (1
Timóteo 2:5; Hebreus 9:24). Deus demonstrou Seu poder
revertendo todo o estado de humilhação que Cristo suportou aqui na Terra
e restaurando lhe toda a glória da qual Ele havia se esvaziado para se
fazer um de nós.
21 acima de todo principado, e potestade, e
poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir, não só no presente
século, mas também no vindouro
O terceiro ato do poder de Deus revelado em Jesus Cristo
é a exaltação. Cristo é chamado de o segundo Adão (1
Coríntios 15:45-47). O primeiro Adão foi criado por
Deus para dominar sobre toda a criação (Gênesis 1:26-28), as falhou, desobedecendo e trazendo a morte sobre toda
a humanidade (Romanos 5:12). Porém,
Cristo, o segundo Adão, não falhou. Ele obedeceu plenamente ao
Pai e, por isso, foi exaltado sobre todo principado, potestade, poder e
domínio (Filipenses 2:9-11).
Essa expressão se refere aos poderes e hierarquias
espirituais existentes nos céus. Nas regiões celestiais há ordens
angelicais, como principados, potestades, tronos e dominações (Colossenses
1:16), e Cristo foi colocado acima de todas
elas. Isso significa que todo o reino espiritual, seja de anjos bons ou
maus, está subordinado a Cristo Jesus (1
Pedro 3:22). Nenhum poder
angelical, celestial ou demoníaco, pode se comparar à autoridade do Filho de
Deus.
Essa afirmação de Paulo também confronta diretamente a crença
dos efésios. O povo de Éfeso venerava a deusa Diana (ou Ártemis),
considerada a rainha dos céus e dos poderes espirituais (Atos
19:27-28). Paulo, porém, declara que não é Diana
quem reina sobre os poderes do universo, mas sim Cristo Jesus, Senhor
de todas as coisas, acima de qualquer poder, autoridade ou ser celestial.
Mas a exaltação de Cristo não se limita ao mundo espiritual.
Paulo acrescenta que Ele está “acima de todo nome que se possa referir” ou
seja, acima de qualquer autoridade humana. Títulos de honra e
autoridade, como digníssimo, excelentíssimo, vossa majestade
ou vossa santidade, não se comparam à majestade e soberania do nome
de Jesus, diante do qual todo joelho se dobrará e toda língua confessará
que Ele é o Senhor (Filipenses 2:10-11).
E Paulo completa: “não só no presente século, mas também no
vindouro”. Isso quer dizer que Cristo já reina agora, já possui
toda autoridade (Mateus 28:18), e
continuará reinando eternamente. No futuro, quando Ele vier em glória,
Seu reinado será plenamente revelado e visível a todos os povos (Apocalipse
19:11-16).
Assim, o poder de Deus manifestado em Cristo culmina em Sua
exaltação suprema, onde Ele reina sobre todas as coisas, no céu e
na terra, agora e para sempre.
22 E pôs todas as coisas debaixo dos pés, e para
ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, 23 a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que
a tudo enche em todas as coisas.”
Deus colocou todas as coisas debaixo da autoridade de Cristo,
e por isso Ele é chamado Senhor (Filipenses 2:11).
O Pai entregou todas as coisas nas mãos do Filho (Mateus
28:18; João 3:35). Tudo o que existe, no céu e na
terra, submete-se ao governo soberano de Cristo (Colossenses
1:16-17).
Sem Cristo, há um vazio espiritual e existencial, pois Ele
é aquele que dá sentido e plenitude a toda a criação. A analogia de “Cristo
como a peça que completa o quebra-cabeça” é válida se compreendida à luz das
Escrituras: tudo foi criado por Ele e para Ele, e nele tudo subsiste
(Colossenses
1:16-17). Portanto, sem Cristo, nada é completo,
pois Ele é a plenitude de todas as coisas, e a igreja é o lugar onde
essa plenitude se manifesta (Efésios 1:23).
Cristo enche todas as coisas, ou seja, Ele é quem dá
propósito, ordem e sentido à criação (Efésios 4:10). E Paulo ora para que os crentes sejam iluminados e
compreendam a grandeza da herança gloriosa de Deus nos santos, isto é, a
igreja, o povo reunido em Seu nome (Efésios 1:18). Aos olhos humanos, a igreja pode parecer cheia de falhas, divisões
e fraquezas; porém, espiritualmente, é o corpo de Cristo, a
plenitude de sua presença e manifestação (1 Coríntios 12:27). É nela que podemos ver traços do poder transformador de Deus
como reconciliação, amor, perdão, união e boas obras (João
13:35; Efésios 2:10). Mas apenas no mundo
vindouro essa transformação será plenamente revelada, quando o processo da santificação
for completado (1 João 3:2).
Em Efésios, esta é a primeira vez que Paulo usa a palavra
“igreja” (Efésios 1:23). É nela que Cristo
se completa, não no sentido de insuficiência, mas de manifestação:
Cristo se expressa plenamente através da igreja, assim como a igreja
se realiza em Cristo. Há uma união perfeita e inseparável, Cristo é a
cabeça, e a igreja é o corpo (Colossenses 1:18). Ambos são distintos em função, mas um só em
natureza e propósito.
Lições extraídas do texto:
1. Mediante visão espiritual, enxergamos o poder de Deus agindo na
igreja. A verdadeira percepção do poder divino
depende de olhos espiritualmente iluminados (Efésios 1:18).
2. Paulo não apenas ora, mas também ensina. Ele pede iluminação espiritual, mas também explica o conteúdo
dessa iluminação. Assim, o crescimento espiritual ocorre não só através
da oração, mas também pelo estudo da Palavra revelada (2
Timóteo 3:16-17).
3. Compreender que estamos unidos a Cristo na morte e na
ressurreição. Isso nos dá segurança eterna,
coragem diante das perseguições e esperança na ressurreição futura
(Romanos
6:5-8; Colossenses 3:1-3).
4. Cristo intercede por nós. Ele, como
homem glorificado, está à direita de Deus intercedendo por nós (Romanos
8:34; Hebreus 7:25).
5. Cristo está sobre todas as coisas, inclusive nossos inimigos. Ele reina soberanamente sobre todos os poderes e
circunstâncias (Efésios 1:22).
6. Devemos valorizar a igreja. A igreja
é o corpo de Cristo, o lugar onde Cristo vive e se manifesta (1
Coríntios 12:27; Efésios 4:15-16). Por isso,
devemos amar, servir e nos envolver com ela, pois quem ama Cristo,
ama também o Seu corpo.
Aplicações práticas
- Nossa alegria deve estar em Cristo Jesus,
e não em coisas materiais, conquistas ou vitórias passageiras (Filipenses 4:4).
- Se alguém se sente inseguro quanto à sua salvação ou
eleição, deve ir humildemente até Deus e pedir
que Ele ilumine os olhos do seu coração (Efésios 1:18), para compreender a
grandeza do Seu poder e graça.
- Se alguém está vacilando na fé,
deve olhar para Jesus, e não para o mundo (Hebreus 12:2).
- Assim como Pedro afundou ao tirar os olhos de
Cristo (Mateus 14:30),
também nós tropeçamos quando deixamos de olhar para o nosso Salvador.