terça-feira, 25 de novembro de 2025

EFÉSIOS 1:19-23

Tendo compreendido a profundidade da oração de Paulo, especialmente seu pedido para que Deus iluminasse os olhos do coração dos crentes, avançamos agora para o ponto em que o apóstolo revela como esse poder divino se manifesta de forma suprema na obra de Cristo. É justamente nessa transição que entramos nos versículos 19 a 23, onde Paulo descreve a grandeza incomparável do poder de Deus e a exaltação de Jesus acima de todas as coisas.

A partir daqui, veremos de maneira mais detalhada a natureza desse poder que Paulo pede que Deus conceda aos crentes, um poder que não apenas salva, mas também sustenta, transforma e glorifica.

“19  e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; 20  o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais,

3. A suprema grandeza do seu poder para com os que creem

Esse poder é o mesmo poder que Deus exerceu em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos (Ef 1:20).

Deus agiu com poder para realizar o Seu plano. Paulo mostra, logo no início do capítulo 2 de Efésios, o tamanho desse poder ao descrever a nossa antiga condição espiritual:

“Estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais” (Efésios 2:1-3).

Ou seja, antes da ação poderosa de Deus, estávamos completamente perdidos, espiritualmente mortos, escravizados pelo pecado, submissos às paixões carnais e à influência de Satanás. Não havia em nós capacidade ou vontade de buscar a Deus, vivíamos segundo o curso deste mundo, afastados da vida que vem de Deus (Romanos 3:10-12; Efésios 4:18).

Mas é nesse cenário de total miséria espiritual que se manifesta “a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos” (Efésios 1:19). Pois “Deus, sendo rico em misericórdia, e por causa do grande amor com que nos amou, estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, pela graça sois salvos” (Efésios 2:4-5).

Esse é o PODER que Paulo deseja que conheçamos, o poder que vivifica os mortos espirituais, que tira o homem das trevas e o transporta para o reino do Filho do Seu amor (Colossenses 1:13). É o poder que muda a natureza humana, que gera fé onde havia incredulidade, e que sustenta os crentes até o fim.

O fato de crermos, permanecermos firmes e continuarmos sendo transformados é resultado direto da eficácia da força desse poder. É por isso que nossa salvação não depende da nossa força, mas da fidelidade de Deus, que “há de completar a boa obra que começou em nós até o dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1:6).

Nada pode impedir o cumprimento do plano de Deus, e é nesse poder irresistível e eficaz que se baseia nossa segurança eterna.

Nada além do supremo poder de Deus poderia tirar o homem da morte espiritual e torná-lo participante da herança dos santos na luz (Cl 1:12-13).

Esse mesmo poder é o que nos sustenta na fé até o fim (1Pe 1:5). Por isso, cremos na segurança eterna do crente: quem foi chamado e salvo pelo poder de Deus não pode ser perdido, pois é Deus quem preserva o que Ele mesmo regenerou (Rm 8:38-39; Jo 6:37-39).

Esse poder ao qual Paulo se refere está diretamente ligado à salvação. Deus é poderoso para mudar todo o universo que conhecemos, alterar o clima e até deslocar montanhas (Salmos 65:6; Mateus 17:20). No entanto, o apóstolo fala de um poder específico, o poder de Deus para com os que creem, isto é, o poder da salvação.

Tendo compreendido como esse poder atua espiritualmente na vida dos crentes, podemos olhar para o contexto dos efésios e perceber como essa mensagem fazia sentido para eles.

Os efésios eram adoradores da deusa Diana e praticavam magia, feitiçaria e adivinhações. Quando se converteram ao Evangelho, demonstraram publicamente o arrependimento queimando todos os livros e objetos relacionados à idolatria (Atos 19:19). Mas eles poderiam ter se perguntado: “Agora que somos filhos de Deus, como podemos ver o Seu poder? Ainda ficamos doentes, ainda enfrentamos problemas, e agora passamos a ser perseguidos. Onde está, então, a manifestação desse poder?”

Essa é justamente a essência da mensagem que Paulo transmite: o poder de Deus não se manifesta necessariamente em grandes eventos visíveis ou em demonstrações extraordinárias, como milagres e sinais, mas atua principalmente na dimensão espiritual, nas regiões celestiais, e se manifesta em Cristo Jesus. Foi esse poder grandioso que o ressuscitou dentre os mortos e o fez assentar-se à direita de Deus nos lugares celestiais (Efésios 1:20; Filipenses 2:9-11).

Em resumo, o grande poder de Deus se revela:

  • No fato de Deus ter escolhido aqueles que seriam salvos (Efésios 1:4-5);
  • No fato de Cristo ter morrido por esses escolhidos na cruz (Romanos 5:8);
  • No fato de Deus chamar irresistivelmente por meio da pregação da Palavra (Romanos 10:17; João 6:44);
  • Em dar vida àqueles que estavam espiritualmente mortos (Efésios 2:1,5);
  • Em conceder o Espírito Santo para sustentar os crentes até o fim (Efésios 1:13-14; Filipenses 1:6).

É nisso que se manifesta o poder de Deus para conosco: em nos resgatar deste mundo, perdoar os nossos pecados, dar-nos nova vida, nos regenerar, conceder-nos o Espírito Santo e nos preservar para a salvação eterna, a qual está reservada para o povo de Deus (1 Pedro 1:3-5).

E é tão grande esse poder que Paulo tenta explicá-lo utilizando quatro palavras diferentes na língua grega para descrevê-lo, todas presentes em Efésios 1:19:

“E qual a suprema grandeza do seu poder¹ para com os que cremos, segundo a eficácia² da força³ do seu poder⁴” (Efésios 1:19).

Paulo emprega quatro termos gregos distintos para expressar a grandiosidade do poder de Deus:

1.    Poder — do grego dýnamis, de onde vem a palavra dinamite, indicando força ativa, capacidade de realizar algo com eficácia (Atos 1:8);

2.    Eficácia — do grego enérgeia, de onde vem o termo energia, significando ação operante, atividade eficaz de Deus (Filipenses 3:21);

3.    Força — do grego krátos, que dá origem a palavras como democracia (“poder do povo”), e expressa domínio, autoridade e soberania (1 Pedro 5:11);

4.    Poder — do grego ischýs, que significa capacidade, vigor, força interior para realizar grandes feitos (Marcos 12:30).

Paulo reúne essas quatro palavras para tentar transmitir a imensidão do poder divino. Esse é o poder que realiza o maior de todos os milagres: a conversão de um pecador a Jesus Cristo (2 Coríntios 5:17).

E esse poder não cessa após a conversão; ele continua operando na vida do crente, sustentando-o e fazendo-o perseverar na fé até o fim (Filipenses 1:6).

É esse poder que nos tira da morte para a vida (Efésios 2:1,5), das trevas para a luz (Colossenses 1:13), e da escravidão do pecado para a liberdade em Cristo Jesus (Romanos 6:22). Somente esse poder pode transformar por completo a vida de qualquer pessoa.

20  o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais,

Paulo, após descrever o grande poder de Deus que age na conversão dos crentes, poder que transforma filhos da perdição em filhos de Deus (Efésios 2:3-5; João 1:12-13), não se contenta em apenas falar sobre essa grandeza, mas mostra onde esse poder é revelado de forma mais clara e perfeita: em Jesus Cristo.

O mesmo poder que Deus exerceu em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o assentar-se à Sua direita nos lugares celestiais, é o poder que opera também em nós, os que cremos (Efésios 1:19-20).

A ressurreição de Jesus é, portanto, a maior demonstração da força divina que também atua na vida dos crentes.

Diferente das outras ressurreições registradas na Bíblia, como a do filho da viúva de Sarepta (1 Reis 17:22), a do homem que tocou os ossos de Eliseu (2 Reis 13:21), a de Lázaro (João 11:43-44) e a da menina Tabita (Atos 9:40-41), a ressurreição de Cristo é única e superior a todas elas.

As demais pessoas ressuscitadas voltaram à vida em corpos corruptíveis e, por isso, morreram novamente.

Mas Cristo ressuscitou em um corpo incorruptível e glorioso (1 Coríntios 15:42-44), imortal e eterno, que vive e reina até hoje (Romanos 6:9).

Foi essa a razão pela qual Paulo cita especificamente a ressurreição de Cristo: ela é a expressão máxima do poder de Deus.

A ressurreição de Jesus inaugura uma nova humanidade. Ele é chamado de “o primogênito dentre os mortos” (Colossenses 1:18; Apocalipse 1:5), pois foi o primeiro a receber um corpo glorificado, modelo do corpo que será dado aos que creem (Filipenses 3:20-21). Assim, Cristo é o princípio de uma nova criação, o novo homem, que vive para sempre diante de Deus.

Depois de ressuscitar Jesus, Deus o exaltou aos céus, e esse acontecimento foi testemunhado pelos discípulos (Atos 1:9-11) e profetizado por Davi, que disse:

“Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” (Salmos 110:1; Atos 2:34-35).

Cristo havia se esvaziado de Sua glória e posição original (Filipenses 2:6-8), assumindo a forma de servo e se humilhando até a morte. Mas Deus o exaltou soberanamente, restituindo-lhe toda a glória e majestade (Filipenses 2:9-11).

Agora, Cristo está assentado à direita de Deus não apenas como Deus, mas também como homem.

Isso significa que há um de nós, um homem perfeito, assentado no trono de Deus, representando toda a humanidade redimida (1 Timóteo 2:5; Hebreus 9:24). Deus demonstrou Seu poder revertendo todo o estado de humilhação que Cristo suportou aqui na Terra e restaurando lhe toda a glória da qual Ele havia se esvaziado para se fazer um de nós.

21  acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir, não só no presente século, mas também no vindouro

O terceiro ato do poder de Deus revelado em Jesus Cristo é a exaltação. Cristo é chamado de o segundo Adão (1 Coríntios 15:45-47). O primeiro Adão foi criado por Deus para dominar sobre toda a criação (Gênesis 1:26-28), as falhou, desobedecendo e trazendo a morte sobre toda a humanidade (Romanos 5:12). Porém, Cristo, o segundo Adão, não falhou. Ele obedeceu plenamente ao Pai e, por isso, foi exaltado sobre todo principado, potestade, poder e domínio (Filipenses 2:9-11).

Essa expressão se refere aos poderes e hierarquias espirituais existentes nos céus. Nas regiões celestiais há ordens angelicais, como principados, potestades, tronos e dominações (Colossenses 1:16), e Cristo foi colocado acima de todas elas. Isso significa que todo o reino espiritual, seja de anjos bons ou maus, está subordinado a Cristo Jesus (1 Pedro 3:22). Nenhum poder angelical, celestial ou demoníaco, pode se comparar à autoridade do Filho de Deus.

Essa afirmação de Paulo também confronta diretamente a crença dos efésios. O povo de Éfeso venerava a deusa Diana (ou Ártemis), considerada a rainha dos céus e dos poderes espirituais (Atos 19:27-28). Paulo, porém, declara que não é Diana quem reina sobre os poderes do universo, mas sim Cristo Jesus, Senhor de todas as coisas, acima de qualquer poder, autoridade ou ser celestial.

Mas a exaltação de Cristo não se limita ao mundo espiritual. Paulo acrescenta que Ele está “acima de todo nome que se possa referir” ou seja, acima de qualquer autoridade humana. Títulos de honra e autoridade, como digníssimo, excelentíssimo, vossa majestade ou vossa santidade, não se comparam à majestade e soberania do nome de Jesus, diante do qual todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Ele é o Senhor (Filipenses 2:10-11).

E Paulo completa: “não só no presente século, mas também no vindouro”. Isso quer dizer que Cristo já reina agora, já possui toda autoridade (Mateus 28:18), e continuará reinando eternamente. No futuro, quando Ele vier em glória, Seu reinado será plenamente revelado e visível a todos os povos (Apocalipse 19:11-16).

Assim, o poder de Deus manifestado em Cristo culmina em Sua exaltação suprema, onde Ele reina sobre todas as coisas, no céu e na terra, agora e para sempre.

22  E pôs todas as coisas debaixo dos pés, e para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, 23  a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas.”

Deus colocou todas as coisas debaixo da autoridade de Cristo, e por isso Ele é chamado Senhor (Filipenses 2:11).

O Pai entregou todas as coisas nas mãos do Filho (Mateus 28:18; João 3:35). Tudo o que existe, no céu e na terra, submete-se ao governo soberano de Cristo (Colossenses 1:16-17).

Sem Cristo, há um vazio espiritual e existencial, pois Ele é aquele que dá sentido e plenitude a toda a criação. A analogia de “Cristo como a peça que completa o quebra-cabeça” é válida se compreendida à luz das Escrituras: tudo foi criado por Ele e para Ele, e nele tudo subsiste (Colossenses 1:16-17). Portanto, sem Cristo, nada é completo, pois Ele é a plenitude de todas as coisas, e a igreja é o lugar onde essa plenitude se manifesta (Efésios 1:23).

Cristo enche todas as coisas, ou seja, Ele é quem dá propósito, ordem e sentido à criação (Efésios 4:10). E Paulo ora para que os crentes sejam iluminados e compreendam a grandeza da herança gloriosa de Deus nos santos, isto é, a igreja, o povo reunido em Seu nome (Efésios 1:18). Aos olhos humanos, a igreja pode parecer cheia de falhas, divisões e fraquezas; porém, espiritualmente, é o corpo de Cristo, a plenitude de sua presença e manifestação (1 Coríntios 12:27). É nela que podemos ver traços do poder transformador de Deus como reconciliação, amor, perdão, união e boas obras (João 13:35; Efésios 2:10). Mas apenas no mundo vindouro essa transformação será plenamente revelada, quando o processo da santificação for completado (1 João 3:2).

Em Efésios, esta é a primeira vez que Paulo usa a palavra “igreja” (Efésios 1:23). É nela que Cristo se completa, não no sentido de insuficiência, mas de manifestação: Cristo se expressa plenamente através da igreja, assim como a igreja se realiza em Cristo. Há uma união perfeita e inseparável, Cristo é a cabeça, e a igreja é o corpo (Colossenses 1:18). Ambos são distintos em função, mas um só em natureza e propósito.

 

Lições extraídas do texto:

1.    Mediante visão espiritual, enxergamos o poder de Deus agindo na igreja. A verdadeira percepção do poder divino depende de olhos espiritualmente iluminados (Efésios 1:18).

2.    Paulo não apenas ora, mas também ensina. Ele pede iluminação espiritual, mas também explica o conteúdo dessa iluminação. Assim, o crescimento espiritual ocorre não só através da oração, mas também pelo estudo da Palavra revelada (2 Timóteo 3:16-17).

3.    Compreender que estamos unidos a Cristo na morte e na ressurreição. Isso nos dá segurança eterna, coragem diante das perseguições e esperança na ressurreição futura (Romanos 6:5-8; Colossenses 3:1-3).

4.    Cristo intercede por nós. Ele, como homem glorificado, está à direita de Deus intercedendo por nós (Romanos 8:34; Hebreus 7:25).

5.    Cristo está sobre todas as coisas, inclusive nossos inimigos. Ele reina soberanamente sobre todos os poderes e circunstâncias (Efésios 1:22).

6.    Devemos valorizar a igreja. A igreja é o corpo de Cristo, o lugar onde Cristo vive e se manifesta (1 Coríntios 12:27; Efésios 4:15-16). Por isso, devemos amar, servir e nos envolver com ela, pois quem ama Cristo, ama também o Seu corpo.

Aplicações práticas

  • Nossa alegria deve estar em Cristo Jesus, e não em coisas materiais, conquistas ou vitórias passageiras (Filipenses 4:4).
  • Se alguém se sente inseguro quanto à sua salvação ou eleição, deve ir humildemente até Deus e pedir que Ele ilumine os olhos do seu coração (Efésios 1:18), para compreender a grandeza do Seu poder e graça.
  • Se alguém está vacilando na fé, deve olhar para Jesus, e não para o mundo (Hebreus 12:2).
  • Assim como Pedro afundou ao tirar os olhos de Cristo (Mateus 14:30), também nós tropeçamos quando deixamos de olhar para o nosso Salvador.

 

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

EFÉSIOS 1:15-19

Oração de Paulo pela Igreja em Éfeso

Nas mensagens anteriores, vimos Paulo narrando como Deus preparou todo o plano da salvação, envolvendo a eleição e a predestinação, e como Jesus Cristo foi o agente que cumpriu esse plano perfeito, realizando a redenção e garantindo nossa herança eterna (Ef 1:3-14). Ao final desses versos, observamos também a atuação do Espírito Santo, o terceiro da Trindade, que continua agindo até hoje como o meio pelo qual somos alcançados pela graça de Deus. É Ele quem convence, transforma e sela os escolhidos, fazendo-os ouvir e crer na Palavra da verdade: o evangelho da salvação (Ef 1:13-14).

A gratidão e intercessão de Paulo

15 Por isso, também eu, tendo ouvido da fé que há entre vós no Senhor Jesus e do amor para com todos os santos, 16 não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós nas minhas orações (Ef 1:15-16).

Paulo foi o fundador da igreja em Éfeso (At 19:1-10) e também de outras igrejas nas regiões próximas. Essas comunidades enfrentavam perseguições e dificuldades por causa da fé, o que certamente gerava entre alguns desânimo, especialmente por saberem que o próprio Paulo, seu fundador e líder espiritual, estava preso (Ef 3:1; 4:1; Fp 1:12-14).

Mesmo assim, Paulo recebeu boas notícias a respeito da fé e do amor dos efésios, fé no Senhor Jesus e amor para com todos os santos. Essa combinação é a marca dos verdadeiros crentes: fé em Cristo e amor fraternal (1Ts 1:3; Cl 1:4; Jo 13:35).

Esses frutos espirituais mostravam a Paulo que, de fato, aqueles irmãos eram os escolhidos de Deus, selados com o Espírito Santo (Ef 1:13). A fé genuína e o amor mútuo eram evidências de que o Espírito de Deus havia operado neles, garantindo que nada os poderia separar do amor de Deus em Cristo Jesus (Rm 8:38-39).

Por isso, Paulo declara: “não cesso de dar graças por vós”. Isso não significa que ele passava o tempo todo orando apenas por eles, mas que, constantemente, ao lembrar-se dos efésios, dava graças a Deus por suas vidas (1Ts 5:17-18; Fp 1:3-5). Sua gratidão se expressava em oração intercessória contínua, mostrando o amor pastoral e a comunhão espiritual que mantinha com aquela igreja, mesmo estando preso.

O conteúdo da oração

Nos versos seguintes (Ef 1:17-19), Paulo revela o conteúdo dessa oração: ele pede que Deus conceda aos efésios espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento de Cristo, iluminando os olhos do coração para compreenderem a esperança, a riqueza e o poder que pertencem aos que creem.

Mas o ponto central aqui (vs. 15-16) é a gratidão perseverante de Paulo. Ele não se deixa abater pelas circunstâncias nem pelas prisões, mas continua servindo a Deus com alegria, intercedendo pelos irmãos e reconhecendo a obra do Espírito Santo neles.

Oração por sabedoria e revelação espiritual

17  para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele,

Nos versículos anteriores, Paulo expressou sua gratidão a Deus pela fé e amor dos irmãos em Éfeso (Ef 1:15-16). Agora, ele revela o conteúdo de sua oração: pede que Deus conceda aos cristãos espírito de sabedoria e de revelação para que cresçam no pleno conhecimento de Cristo.

O Deus de nosso Senhor Jesus Cristo

Paulo inicia sua oração dizendo: “o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória”.
É importante lembrar que Jesus Cristo é Deus verdadeiro e homem verdadeiro. Como Deus, Ele é um com o Pai (
Jo 10:30), mas como homem, sujeitou-se à vontade do Pai e, nessa condição, Deus Pai é o Deus de Jesus Cristo (Jo 20:17).

A expressão “Pai da glória” é uma forma hebraica de afirmar que Deus é o Pai supremo, cheio de glória e majestade, o Criador e sustentador de todas as coisas (Sl 24:10; 1Cr 29:11).

A prática da oração constante

Paulo está falando de oração (Ef 1:16-17). E o exemplo que ele dá tem uma aplicação prática para todos os cristãos: não há um local específico onde se deve orar.

Mesmo estando preso e acorrentado a um soldado romano (At 28:16, 30), Paulo não deixava de orar. Ele sabia que nunca estava sozinho, pois o Senhor estava com ele (2Tm 4:17). Assim, ensina-nos que não há desculpas para não orarmos, devemos orar em qualquer lugar e em qualquer circunstância (Fp 4:6; 1Ts 5:17).

Além disso, suas orações não se limitavam a pedidos pessoais. Ele intercedia por outras pessoas, agradecia por seus irmãos e orava em favor da igreja (Rm 1:9-10; Cl 1:9). Essa atitude mostra que a oração não é apenas um meio de pedir algo a Deus, mas uma forma de comunhão e serviço espiritual, em que também colocamos diante de Deus as necessidades dos outros.

A gratidão pelo que Deus faz na vida dos outros

A oração de Paulo nos ensina também a agradecer pelas bênçãos concedidas aos outros. Em vez de invejar ou lamentar o sucesso dos irmãos, devemos nos alegrar com eles, reconhecendo a graça de Deus em suas vidas (Rm 12:15; Fp 2:3).

Por exemplo, se Deus abençoa alguém com uma nova casa, um bom emprego ou prosperidade, nossa reação deve ser:

“Senhor, obrigado por abençoar meu irmão. Continue derramando tua graça sobre ele.”

Esse é o verdadeiro espírito cristão: considerar os outros superiores a nós mesmos e viver com humildade diante de Deus (Fp 2:3-4; Tg 4:6).

O pedido de Paulo: sabedoria e revelação

Depois de agradecer e interceder pelos irmãos, Paulo também faz um pedido específico:

Que Deus conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dEle” (Ef 1:17).

Note que Paulo não pede prosperidade, saúde ou livramentos, embora tudo isso seja importante, mas pede algo muito mais valioso: sabedoria para conhecer a Deus.

Aqui, “espírito de sabedoria” não se refere ao Espírito Santo (com letra maiúscula), mas a uma disposição espiritual, uma atitude mental e emocional guiada pelo Espírito de Deus, que leva o crente a viver com discernimento espiritual (Pv 2:6; Tg 1:5).

Esse espírito de sabedoria capacita o cristão a tomar decisões prudentes e bíblicas, não baseadas em impulsos, mas na verdade revelada nas Escrituras (Cl 1:9-10). Assim, mesmo alguém simples, mas cheio dessa sabedoria divina, pode ser mais sábio que os sábios deste mundo (1Co 1:20-25).

O verdadeiro sentido de “revelação”

O “espírito de revelação” que Paulo menciona não significa descobrir novas verdades ou receber novas revelações místicas, como muitas vezes se interpreta erroneamente.

Revelação aqui tem o sentido de compreender mais profundamente as verdades que já foram reveladas por Deus em Sua Palavra. Logo adiante, Paulo fala sobre “iluminação” (Ef 1:18), mostrando que se trata de clareza espiritual e entendimento das Escrituras, não de algo novo ou oculto.

As três fases da obra do Espírito Santo na revelação

A obra do Espírito Santo relacionada à revelação pode ser entendida em três fases:

1.    Revelação – É a ação do Espírito Santo em revelar o que estava oculto no plano de Deus. Foi assim com os profetas e apóstolos. Por exemplo, Isaías viu o Cristo crucificado e os novos céus e nova terra (Is 53; 65:17). Paulo e João também receberam revelações sobre o futuro (Gl 1:11-12; Ap 1:1).

2.    Inspiração – Depois de revelar, o Espírito Santo inspirou esses homens para registrarem fielmente a mensagem divina. Assim nasceram as Escrituras, escritas sem erro e com autoridade divina (2Tm 3:16; 2Pe 1:21).

3.    Iluminação – Hoje, já não há novas revelações ou inspirações infalíveis, pois tudo foi registrado na Bíblia. A função atual do Espírito Santo é iluminar o entendimento dos crentes para compreenderem e aplicarem as verdades já reveladas (Jo 14:26; Jo 16:13; 1Co 2:12).

O pleno conhecimento de Deus

O objetivo de Paulo é que os crentes não fiquem satisfeitos com um conhecimento superficial de Deus, mas busquem o pleno conhecimento (Cl 1:9-10; 2Pe 3:18).

Esse pleno conhecimento não é condição para a salvação, nem é completamente alcançável nesta vida, mas é algo que todo cristão deve desejar e buscar, pois quanto mais conhecemos a Deus, mais o amamos, mais confiamos nEle e mais nos tornamos semelhantes a Cristo (Fp 3:10).

Conclusão

Em resumo, a oração de Paulo nos ensina a:

  • Orar constantemente, em qualquer lugar e circunstância (1Ts 5:17);
  • Agradecer a Deus pelas bênçãos derramadas sobre os outros;
  • Interceder pelos irmãos e pela igreja;
  • Pedir a Deus sabedoria e iluminação espiritual para conhecê-Lo mais profundamente.

Assim, crescemos em graça, fé e amor, refletindo o caráter de Cristo em nossas vidas.

18  iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos 19  e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder;

Iluminados os olhos do vosso coração

Depois de pedir que Deus concedesse espírito de sabedoria e de revelação, Paulo ora para que “os olhos do coração” dos cristãos sejam iluminados (Ef 1:18).

Mas o que significa isso?

A Bíblia muitas vezes descreve o coração como o centro do ser humano, o lugar onde residem o entendimento, a vontade, as emoções e a consciência (Pv 4:23; Mt 15:19; Hb 4:12). É com o coração que cremos (Rm 10:10) e é por ele que compreendemos as coisas espirituais.

Porém, o pecado cegou o coração humano. O homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus (1Co 2:14). Por isso, Paulo pede a Deus que ilumine os olhos do coração, para que o cristão possa enxergar claramente as verdades espirituais e alcançar o pleno conhecimento de Deus.

Observe que os crentes de Éfeso já eram salvos, selados com o Espírito Santo (Ef 1:13) e batizados em Cristo, mas ainda assim Paulo ora para que cresçam no entendimento espiritual. Isso mostra que a vida cristã não termina na conversão, ela é um processo de crescimento contínuo, e devemos buscar cada vez mais o conhecimento e a profundidade em Deus (Cl 1:9-10; 2Pe 3:18).

As três verdades que Paulo deseja que compreendamos

Paulo destaca três aspectos fundamentais que dependem dessa iluminação espiritual:

1.    A esperança do seu chamamento

2.    A riqueza da glória da sua herança nos santos

3.    A suprema grandeza do seu poder para com os que creem

1. A esperança do seu chamamento

Paulo ora para que saibamos “qual é a esperança do seu chamamento” (Ef 1:18).

Deus não apenas convida, Ele chama eficazmente (Rm 8:30; 2Tm 1:9). Seu chamado é irresistível, pois procede de Sua vontade eterna.

No início de Efésios 1, aprendemos que Deus elegeu (Ef 1:4), predestinou (Ef 1:5) e planejou toda a salvação em Cristo. Jesus, o Filho, cumpriu o plano, redimindo o povo escolhido (Ef 1:7), e o Espírito Santo selou esse povo como propriedade de Deus (Ef 1:13-14).

Quando Paulo fala da “esperança do chamamento”, ele se refere à certeza de que Deus cumprirá todas as Suas promessas. O chamado divino traz esperança, porque quem chama é fiel para completar a boa obra (Fp 1:6).

Fomos chamados das trevas para a Sua maravilhosa luz (1Pe 2:9); fomos libertos da escravidão do pecado e tornados filhos de Deus (Jo 8:34-36; Rm 8:15). Essa é a nossa esperança, a certeza de que Aquele que nos chamou também nos conduzirá até o fim, dando-nos a vida eterna (Jo 10:28-29).

2. A riqueza da glória da sua herança nos santos

Paulo também ora para que entendamos “qual a riqueza da glória da sua herança nos santos” (Ef 1:18).

Aqui, ele não está falando da nossa herança, mas da herança de Deus.

Nós somos a herança de Deus (Dt 32:9; Ef 1:11). O povo que Ele salvou e redimiu é Sua posse preciosa, o tesouro pelo qual Cristo morreu (Tt 2:14).

Essa herança é gloriosa e rica, pois consiste na comunhão dos santos, a Igreja. Quando entendemos que fazemos parte dessa herança, passamos a valorizar mais o corpo de Cristo (1Co 12:27), a comunhão dos irmãos e o privilégio de congregar (Hb 10:24-25).

Em vez de sermos críticos, distantes ou desigrejados, passamos a reconhecer que a Igreja, mesmo com suas imperfeições humanas, é o povo glorioso de Deus, comprado pelo sangue de Cristo (At 20:28).

3. A suprema grandeza do seu poder para com os que creem

Por fim, Paulo deseja que compreendamos “a suprema grandeza do seu poder para com os que creem”, segundo “a eficácia da força do seu poder” (Ef 1:19).

Esse poder é o mesmo poder que Deus exerceu em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos (Ef 1:20).

Deus agiu com poder para realizar o Seu plano. Paulo mostra, logo no início do capítulo 2 de Efésios, o tamanho desse poder ao descrever a nossa antiga condição espiritual:

“Estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais” (Efésios 2:1-3).

Ou seja, antes da ação poderosa de Deus, estávamos completamente perdidos, espiritualmente mortos, escravizados pelo pecado, submissos às paixões carnais e à influência de Satanás. Não havia em nós capacidade ou vontade de buscar a Deus, vivíamos segundo o curso deste mundo, afastados da vida que vem de Deus (Romanos 3:10-12; Efésios 4:18).

Mas é nesse cenário de total miséria espiritual que se manifesta “a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos” (Efésios 1:19). Pois “Deus, sendo rico em misericórdia, e por causa do grande amor com que nos amou, estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, pela graça sois salvos” (Efésios 2:4-5).

Esse é o PODER que Paulo deseja que conheçamos, o poder que vivifica os mortos espirituais, que tira o homem das trevas e o transporta para o reino do Filho do Seu amor (Colossenses 1:13). É o poder que muda a natureza humana, que gera fé onde havia incredulidade, e que sustenta os crentes até o fim.

O fato de crermos, permanecermos firmes e continuarmos sendo transformados é resultado direto da eficácia da força desse poder. É por isso que nossa salvação não depende da nossa força, mas da fidelidade de Deus, que “há de completar a boa obra que começou em nós até o dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1:6).

Nada pode impedir o cumprimento do plano de Deus, e é nesse poder irresistível e eficaz que se baseia nossa segurança eterna.

Nada além do supremo poder de Deus poderia tirar o homem da morte espiritual e torná-lo participante da herança dos santos na luz (Cl 1:12-13).

Esse mesmo poder é o que nos sustenta na fé até o fim (1Pe 1:5). Por isso, cremos na segurança eterna do crente: quem foi chamado e salvo pelo poder de Deus não pode ser perdido, pois é Deus quem preserva o que Ele mesmo regenerou (Rm 8:38-39; Jo 6:37-39).

Aplicações práticas

1.    Tenha uma vida de oração constante, como Paulo, pedindo a Deus iluminação espiritual e crescimento no conhecimento dEle (Cl 1:9).

2.    Tire os olhos das circunstâncias e contemple a suprema eficácia do poder de Deus, que atua em sua vida.

3.    Se ainda luta contra pecados persistentes, lembre-se: não há nada que o poder de Deus não possa vencer em você.

4.    Busque revelação no sentido correto, não de segredos místicos, mas de iluminação para compreender a profundidade das Escrituras (Sl 119:18; Jo 16:13).

5.    Reflita: se você é crente há anos, quando foi a última vez que aprendeu algo novo sobre Deus? Que o Senhor ilumine os olhos do seu coração para crescer cada dia mais no conhecimento e na graça de Cristo (2Pe 3:18).

Conclusão

A oração de Paulo é uma das mais belas expressões da vida espiritual madura:

  • Ele ora por iluminação e não por bens materiais;
  • Busca o pleno conhecimento de Deus, não o conforto terreno;
  • E nos ensina que a verdadeira sabedoria está em ver com os olhos do coração, guiados pelo Espírito Santo.

Que essa seja também a nossa oração diária:

“Senhor, ilumina os olhos do meu coração, para que eu conheça a esperança do teu chamamento, a riqueza da tua herança e a grandeza do teu poder.”